2014: o ano que não acabou


2014: o ano que não acabou
Texto de Felipe Mello

15h. Quarta-feira. Fim de expediente. Trabalhadores deixam sorridentes seus locais de trabalho, seguem até o pátio das empresas, montam em suas bicicletas e rumam para as suas casas. Pedalando pelos incontáveis quilômetros de ciclovias que cruzam os mais remotos rincões da cidade, celebram sem economizar gracejos e propagandeando os dias que se aproximam. Afinal, é a véspera de um aguardado feriado prolongado. As 30 horas de jornada regular semanal de trabalho pediam uma trégua.
O ano? 2114.
O motivo do feriado? Celebração do centenário do ano que não acabou.
Aos que ainda vivem no presente, abraçados mais aos traumas vividos que às esperanças ativas vindouras, possibilidade de susto e incompreensão. Aos que aprenderam com o passado, mas escolheram protagonizar o futuro, confirmação daquilo que sempre se suspeitou: uma nação digna só se faz com gente digna disposta a agir dignamente. 2014 foi o ano que não acabou porque ali começou a Grande Revolução da Dignidade Brasileira.
Chegando à capital paulista para o feriado, um distinto senhor observa seu neto enquanto trens climatizados os conduzem do aeroporto de Guarulhos até o litoral sul. A paisagem inspira, em especial pelas margens arborizadas do rio Tietê, com milhares de pessoas se acomodando para seus tradicionais piqueniques e outros tantos se banhando e praticando esportes. Inúmeras bandeiras brasileiras tremulando com as suas 28 estrelas brancas espalhadas sobre o azul. Saindo da cidade, trilhos paralelos à rodovia dos Imigrantes avançam, com suas janelas preenchidas por uma reserva de Mata Atlântica cada vez mais vibrante e rica.

O neto rompe o silêncio, indagando:
− Vô, o senhor ainda não tinha nascido em 2014, né?
− Não, meu querido. O vô nasceu um pouco depois. Mas meu pai, o seu bisavô, já era homem crescido naquele tempo.
− Entendi. E ele falava do ano que não acabou?
− Ah, sim. Muito. Eu adorava ouvir cada detalhe.
− E o senhor pode me contar?
− Claro que posso.

E o avô começou a falar, com brilho crescente nos olhos.
− Aquele ano foi diferente dos outros porque as pessoas começaram a entender de verdade que ética não serve para nada se para na garganta. Ela só existe quando vira gesto das nossas mãos, todos os dias. De resto é cacoete de gente preguiçosa, mal intencionada ou as duas, dizia meu pai. Ele contava de todas as coisas sujas que apareceram, uma atrás das outras. Bandidos presos. Máscaras de políticos indo ao chão depois de tantas promessas vazias. Mas ele sempre terminava dizendo: isso não veio de graça, não veio de cima para baixo, e só vai continuar assim se for sempre de baixo para cima. Hoje eu entendo. Saudades do meu velho.

O garoto fitou a expressão emocionada do avô. A memória de um pai querido e já ido raramente passa despercebida a quem fica e segue amando. Uma pequena lágrima nascia tímida no canto de seu olho esquerdo. Ambos respeitaram aquela pausa, uma sublime suspensão do tempo, rompida pelo menino, que abraçando seu avô à altura da cintura, sugeriu:
− Quando a gente chegar vamos escrever uma carta para o biso lá na praia? Acho que ele ficaria feliz de saber que a gente pensa nele e que essas coisas feias não acontecem mais.
− Sim, vamos fazer isso. E vamos fazer outra coisa que o deixará muito feliz. Você sabe que ele trabalhava costurando coisas, né?
− Eu sei. O melhor alfaiate da Mooca.
− É, esse era ele − confirmou, rindo, o avô.
− E o que a gente vai fazer além da carta?
− Eu trouxe comigo uma velha bandeira brasileira. Tão antiga que ela só tem 27 estrelas. Vamos bordar a vigésima oitava nela! Meu pai me dizia que era uma imensa alegria cada vez que alguém trazia sua bandeira para fazer isso.
− Não entendi, vô.
− É que, algum tempo depois do ano que não acabou, a nossa bandeira ganhou uma nova estrela. Nós! Finalmente estava claro para todos que nada poderia dar certo sem muita gente cuidando de muita gente.
− Que legal!

Quando o senhor acabou de falar, o menino disse sua última frase já em disparada, descalçando as sandálias e invadindo a areia branca. O avô sentiu a areia morna roçando em seus pés.
Olhando para o mar aberto de água quase transparente, sentiu-se em paz por saber que seu neto nasceu e está crescendo num tempo em que a maior das inteligências é aquela que se compartilha em busca do aprimoramento da convivência.