À beira do trampolim

(Felipe Mello)


​Quantas vezes caminhamos nossos passos e, ao final de um punhado deles, chegamos à beira de um trampolim? Tal constatação nos coloca em um interessante estado reflexivo: pular ou não pular?

A dúvida é a antessala da decisão, que, por sua vez, é a força motriz das conquistas. O momento que se estabelece ao final do trampolim está visceralmente ligado aos nossos sonhos. Afinal, conquistas são sonhos presenteados com prazo final e ação empreendedora.

Toda e qualquer hesitação frente ao horizonte exposto é respeitável. Estar diante do vazio material, do mar aberto, excita em nós instintos ancestrais, parte deles puxando para o freio cauteloso da inércia, e outra parte para a propulsão impetuosa do movimento. Se pularmos do trampolim, podemos cair, mas também podemos voar. O que distingue o voo da queda? A crença no valor da obra.

O conceito de obra é vasto, ventre que acolhe diversos filhos. Nesta tese, todavia, entendamos obra como o resultado de nossas ações, partindo das pequenas e chegando às grandes. Vale a pergunta intrigante: quais são as mais importantes? As pequenas ou as grandes ações?

A qualidade do que fazemos está intimamente ligada ao interesse que temos pela nossa obra. Se nos interessamos de verdade, buscamos fazer melhor, ampliando conhecimento e executando com mais capricho e potência. A vontade é essencial, e o seu alimento é a busca pela sinceridade naquilo que fazemos. Triste é o caminho daquele que aposta mais na velocidade alta do que na direção correta. O animal humano entristece progressivamente ao passo em que se percebe em alta velocidade, mas se distanciando cada vez mais daquilo que deseja para sua vida profissional, pessoal ou social, que, afinal de contas, é uma só.

Immanuel Kant, considerado geralmente o pensador mais importante e influente da era moderna, tem uma contribuição relevante neste momento de nossa argumentação. Ele defende o conceito de “esclarecimento” como a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade, segundo Kant, é a incapacidade de se servir de seu entendimento sem a direção de outrem. Tal menoridade é por culpa própria se a causa da mesma não reside na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem de servir-se dele sem a direção de outrem. Ter a coragem de nos servirmos do nosso próprio entendimento! Eis o lema do “esclarecimento”.

Está inspirado, escreva uma poesia.

Está cansado, descanse um pouco.

Está sorrindo, faça alguém sorrir também.

Está sozinho, ligue uma música ou telefone para alguém.

Está com saudades, tome a iniciativa e rompa o silêncio.

Está pensando diferente, defenda seus argumentos.

Está em dúvida, pergunte.

Está vivo, voe.

Ao chegarmos à ponta do próximo trampolim, consideremos as possibilidades que o salto pode nos proporcionar, ou seja, voo ou queda. Cada vez acredito mais que ambas as alternativas promovem melhor desenvolvimento humano do que o eterno esperar. Para quem finca o pé e opta por observar o vento da vida levar os outros, mas ele não, resta o consolo proposto por Fernando Pessoa: “às vésperas de não partir nunca, ao menos não é preciso fazer as malas”.

Prefiro aquela contagiante música que nos convida de forma animada (ou seja, com alma vibrante) a abrir nossas asas, soltar nossas feras, cair na gandaia e entrar na festa. Qual festa? Aquela que podemos criar todos os dias, mesmo nos mais desafiadores, que acabam se tornando um pouco menos trágicos quando nos lembramos de que viver não é preciso, mas criar é preciso.

Em frente aos trampolins que a vida nos apresenta, a decisão e a coragem são asas que criamos. Quando sustentadas pela estrutura da preparação individual (cognitiva e emocional) e cuidado na relação com os outros, projetam o candidato à posição de ser alado. E este alça voo! Menotti Del Picchia, artista brasileiro, nos convida a voar e a cantar em um dos seus poemas, sob o argumento de que “quem sabe as canções adormeçam as feras que esperam devorar os pássaros? Voa e canta, enquanto existirem as asas!