Acordos despertos

(Felipe Mello)


Poucos, pouquíssimos momentos têm cheiro e sabor de unidade global como as festas de final de ano. À parte diferenças de crenças e calendários que não compartilham as mesmas datas e personagens, as festas natalinas e a transição de ano aproximam as pessoas, ainda que sem grandes transformações no porvir imediato.

Acordo. Acordo. Duas palavras iguais, diferentes e, novamente, iguais. Como não há acentos que as diferenciem, as duas palavras são escritas de forma idêntica. Para gastar o que acabei de pesquisar e aprender, são palavras homônimas homógrafas, pois têm a mesma grafia com sons diferentes. O que mais interessa por aqui, contudo, é que os seus significados, ainda que diversos, podem se relacionar de forma umbilical.

Que venha ao baile um mestre do acordeon, senhor Luiz Gonzaga: “e do caboclo que vive com a enxada na mão, trabalhando o dia inteiro com a maior diversão sem invejar a ninguém, satisfeito a trabalhar, cada vez mais animado, esse teu suor pingado, grandeza e honra te dá”.

Acordar, despertar, para então estabelecer e reconhecer acordos, tratados, bulas individuais. As bulas dos remédios devem ser cada vez mais legíveis, rege a legislação. À bula individual – de redação intransferível, por sinal – talvez se deva acrescentar ainda mais clareza, mãos apertadas do ser desperto com seus objetivos.

Aperto de mãos firmando acordos conscientes, ainda que impermanentes como a vida. Imagens fortes. Casais em uma igreja selando a cerimônia matrimonial: até a eternidade, enquanto ela durar (salve, Poetinha). Patrão e empregado que se escolhem: sejamos bem-vindos aos nossos desafios, pelo tempo que nos e os suportarmos. Amigos que se reencontram: toca aqui, mano velho, quantas saudades e confissões! Esportistas ao final de um jogo, apenas o epílogo de meses de treinamentos exaustivos: mãos coletivas extravasando as superações individuais. Na hora de comungar, palmas em concha recebendo o corpo de Cristo: renovação da fé nas vísceras de quem crê.

A potência do acordo é diretamente proporcional à consciência de quem o estabelece, especialmente quando a proposta é íntima. Uma armadilha observada amiúde é a confusão entre o unir das mãos em sinal de acordo e o acorrentar das mesmas em sinal de intransigência e posse. A consciência – olhe por ela – é fundamental para fortalecer os acordos, assim como gerar coragem para os ajustes necessários, ainda que dolorosos. O pior do humano acontece quando ele se aprisiona, em desacordo com o seu potencial criativo, tal qual no mito da caverna de Platão. Vem a sensação de mãos se soltando, como nas cenas cinematográficas em que alguém está prestes a cair em um abismo e outrem tenta ajudar. Quando não há acordos despertos conosco e com os outros, está anunciada a queda. Profundo vazio interior. Queda livre, presa.

Argumentos e comprovações biográficas não faltam para reiterar a tese de que conquista – e se conquista – cada vez mais quem caminha desperto, atento à missão. Não se trata de fanatismo intransigente, peso existencial, fardo às costas, pés rastejantes, ó céus, ó azar. É o caminho da coerência que se estabelece para quem está às claras com suas propostas, bússolas individuais. O filósofo e educador Mário Sérgio Cortella propõe em seu livro “Não nascemos prontos!” que tenhamos “generosidade mental, ensinando o que sabemos; honestidade moral, fazendo o que ensinamos; e humildade inteligente, aprendendo o que ainda não sabemos”.

Tantos desejos possíveis com a chegada dos novos ciclos. Troco todos pela clareza no que firmo comigo e com o mundo. Mais atitudes nutritivas e menos coices tóxicos. Mais neurotransmissores e menos radicais livres. Mais beijos e abraços e menos verbos errados. Mais propostas que justificativas. Mais caminhadas e menos televisão. Mais ética que covardia. Mais vida que sobrevida. São os meus votos a quem está acordado e a minha torcida para quem ainda dorme.