Algumas Lembranças


Foram tantas as palavras de carinho por ocasião de meu aniversário. Centenas de manifestações.

Ainda bem que os autores e autoras não foram todos à minha festa. Eu passaria vergonha pela falta de quitutes e pela incapacidade de dar a devida atenção a cada um.

Aliás, nem festa houve. Não me lembro da última vez que celebrei com um evento elaborado a data de meus anos.

Na verdade, houve dois aconchegantes rituais: um no meu local de trabalho e outro em casa. Poucas pessoas, muito carinho.

Não faço a menor ideia de como agradecer.

Posso dizer um simples e sincero obrigado. Ou ainda, como muitos preferem: gratidão!

Mas acho pouco.

Sei que não custa muito digitar algumas palavras na linha do tempo de alguém no Facebook. Inclusive essa rede social funciona como fita vermelha no dedo: salva-nos dos esquecimentos involuntários e facilita a expressão dos votos.

No entanto, você driblou as garras da multiplicidade de afazeres e da velocidade acelerada do cotidiano para me afagar.

Fiquei alegre para chuchu.

Senti vontade de comemorar os frutos da comemoração.

Comemorar significa lembrar junto. Eu sou tarado pela etimologia das palavras. A raiz delas me provoca.

Lembrar junto.

Sendo assim, decidi compartilhar alguns momentos que me trouxeram até aqui. Ou ainda, instantes que, somados, já somam 39 anos e mais um punhadinho.

Para não perder todos os leitores no caminho, acometidos pelo tédio letal, buscarei a síntese a duras penas. Reminiscências sintéticas sem devoção à cronologia. Deixarei as derivações e verticalizações para o livro que pretendo escrever um dia. Será?

Nasci em Cuiabá, no Mato Grosso, em uma família cheinha de cuidados. Que sorte! Pai, mãe, irmãos e demais parentes muito próximos. Que gostoso!

Morei em sítio. Morei em casa com quintal. Pisei na terra e na grama infinitas vezes.

Subi em árvore. Tive inúmeros cães e outros saudosos amigos bichos.

A goiabeira se transformou em meu refúgio. Lá do alto eu via a rua. Desenhava histórias, futuros e amores.

Joguei futebol demais. Em grupo. E, sozinho, nas tardes quentes de Cuiabá, na sala maior da nossa casa. Fui artilheiro e destaque de tantos campeonatos tão meus.

E marquei o gol do título em um campeonato de verdade. Até hoje me lembro do contato da bola com a minha cabeça, vinda de um escanteio. Lembro-me também do abraço coletivo. Fui o melhor do mundo naqueles segundos.

Li muito. Conheci mestres, logo cedo. Jorge Amado, Machado, Clarice, Pessoa, García Márquez, Dostoievski, Saramago e tantos, tantos outros. E li também o “Escaravelho do Diabo”.

Longas tardes de leituras com cheiro de livro velho, curiosidade, paixão pela palavra e vontade de vida se constituindo.

Fui tímido ao extremo até o término da adolescência. O território da paquera era nebuloso. As matinês eram quase uma tortura. Em meu primeiro beijo fui passageiro, quase vítima. Mas foi gostosinho.

Assumo que fui CDF. Ou nerd. Vivia mais confortavelmente no universo de dentro.

Aos 16 anos eu fui embora de Cuiabá. Destino: Ribeirão Preto, interior de São Paulo. O plano era concluir o colegial, hoje chamado de ensino médio, para ampliar as chances de ingresso em uma universidade legal.

Apoio total de pai e mãe. Fomos eu e meu irmão mais velho.

Na última noite em minha cidade natal, fomos todos à pizzaria. Muitos familiares. O local não existe mais. Sob uma mangueira enorme, ouvi muitas palavras de incentivo. Todas elas me ajudaram e ainda me ajudam.

Senti a mão firme do porvir batendo à minha porta. Tive medo, mas era hora de crescer. Aquilo me diziam, e de alguma forma aquilo eu queria.

Ainda assim, dormi aquela noite no quarto dos meus pais, como criança. Colchão ao chão, pensamentos no alto. Lágrimas de despedida da vida já vivida. Expectativas enormes pelo novo mundo que chegava.

Já no colegial, em terras paulistas, estudei bastante. E mais um pouco. Fiz boas amizades. Segui tímido. Tive muita acne. Joguei mais futebol. Foi uma feliz temporada ao lado de meu irmão e sob os olhares atentos e afetuosos especialmente de nossa mãe.

Enfim, passei no vestibular. São Paulo seria a minha nova casa.

Pai e mãe seguiram dando todo o suporte.

Na primeira noite na metrópole, caminhei com meu saudoso velho até a esquina de minha nova morada. Estávamos com fome, cansados de tanto carregar caixas da mudança.

Encontramos uma pequena pizzaria. E comemos juntos, ambos empolgados com a nova fase. Até hoje eu busco aquele sabor em todas as pizzas de muçarela que experimento.

Cursei a faculdade ao mesmo tempo em que trabalhava. Diversas atividades, sempre buscando o movimento, o encontro entre a teoria e a prática.

Encontrei um caminho profissional. Perdi o rumo logo depois.

Tive uma filha. Aliás, ainda tenho uma filha. Que aventura! Entendi o lance de padecer no paraíso.

Perdi meu pai. Reencontrei meu pai nas melhores lembranças.

Virei tio e padrinho do filho mais velho da minha querida irmã.

Fui encontrado pelo nariz vermelho.

Pelo teatro.

Por filósofos e outros pensadores.

Por amores.

Perdi a timidez. Permaneceu apenas o medo de ser dominado por muito tempo por algum medo.

Viajei um pouco pelo mundo.

Viajo o tempo todo nas ideias e sentimentos.

Choro cada vez mais.

E bebo bastante vinho.

Ainda sou um pouco refém da fórmula da utilidade. Mas cada vez mais reconheço a nobreza do ócio.

Renovo diariamente a decisão e as atitudes que me ajudam a escapar da engrenagem moedora de carne e de alma. Mas a briga é diária e intensa.

Compreendi o valor da doação. A beleza da solidariedade e do voluntariado me fazem suportar um pouco melhor tamanhas feiuras que ainda têm tanto lugar no mundo.

Venha, vida. Siga comigo.

Tenha paciência.

Estou aprendendo aos pouquinhos.

A você que chegou até aqui na leitura de minhas confissões superficiais, digo que fiz isso para comemorar contigo mais um aniversário.

Comemorar, lembrar junto.

A minha forma de agradecer a sua lembrança é compartilhar algumas lembranças minhas.

Foram esses caminhos que me trouxeram aqui. Em algum desses momentos eu e você nos encontramos, de longe ou de perto.

E sou feliz por isso.

Até breve!