Capacidade de redimensionar obstáculos

(Felipe Mello)


Como venta na vida da gente. Sopros, brisas, ventinhos, ventos, tempestades. Deslocamentos de ar que tiram o ar da gente. Uma vez a minha mãe me contou uma história.

Em nossa casa de Cuiabá, onde vivi dos 9 aos 15 anos, crescia um coqueiro enraizado no gramado em frente à porta de entrada. Crescia, porque um dia parou de crescer. Gerou dentro de si algo tóxico, que atrofiou sua potência de existir, fazendo daquele gigante que atravessou a minha infância e adolescência um objeto inerte no chão. Antes de cair, entretanto, o coqueiro fez parte da história que minha mãe testemunhou.

Era preciso cortar o coqueiro, uma vez que ele poderia se quebrar e cair sobre a casa. Quando as pessoas contratadas chegaram, foram direto ao ponto e colocaram a madeira abaixo.

Trabalho feito, partes recolhidas. O cenário estava diferente. Um grande vazio. Mas um vazio ainda maior estava por vir.

Algum tempo depois da retirada do coqueiro, um pássaro chegou ao local. De longe, minha mãe observava a insistência dele em fazer voos rasantes. Estava nítido que ele procurava algo.

Voa daqui, voa de lá, o pássaro começou a emitir sons agudos. Uma espécie de canto fúnebre, uma declaração de dor. Naquele instante, minha mãe percebeu o que estava acontecendo. O pássaro deixara o ninho com seus filhotes e fora buscar alimento. Quando regressou, não havia mais ninho, nem filhotes, nem coqueiro. Só o vazio e o incontrolável desejo de mostrar ao mundo a extensão de sua dor.

Caramba, que história triste para ilustrar o tema. Cheguei a pensar nisso quando comecei a escrever. Um pouco depois, sentindo a intersecção entre o assunto e a história, conclui que não se tratava de ser triste ou alegre, mas sim verdadeira e intensa.

De volta ao vento, que venta sem parar. O pássaro sofreu uma dor intensa, uma tragédia.

Subitamente seu tesouro mais precioso foi subtraído. Hoje em dia eu sei a diferença entre uma tempestade, um vento e uma brisa. Assim, caminho muito mais leve pela vida.

A brisa tira um pouco as folhas do lugar; dá a impressão de desordem, mudança de formato, agitação. Pouco tempo depois, todavia, as folhas se ajeitam novamente. Acontece sempre.

O vento é mais forte, pode até mesmo arrancar uma ou mais folhas. Dói. Leva uma parte, deixa outra. Estampa a impermanência diante de nossas retinas céticas e prepotentes. Menos frequente, e ainda assim nos visita com regularidade.

A tempestade é diferente. Golpeia impiedosamente, sem anunciar. Zastrás. Foi-se o que era meu. Meu? O que possuímos, afinal? Sinto que possuo verdadeiramente poucas coisas. A maioria delas. ventos e tempestades podem colocar em cheque. Talvez seja esta a grande função dela, via de regra denominada malvada, desumana, diabólica. Não. Despedir-se é parte óbvia da vida. Aprender a deixar partir é a conquista.

Comemoro a capacidade de redimensionar e ajustar meus obstáculos. Inseri-los em suas verdadeiras categorias me faz caminhar mais alegre e firme. Brisa é brisa. Vento é vento. Tempestade é tempestade. Transformar tudo em tempestade é passar a vida tentando reunir os cacos da gente mesmo e procurando palha em furacão. Transformar tempestade em brisa tampouco é seguro.

A consciência que comemoro me presenteou com uma habilidade que muito me agrada neste momento da vida: a resiliência. Ela me permite receber os impactos da caminhada e endereçá-los corretamente dentro de mim. Assim, a dispersão de energia é muito menor e a saúde é valorizada em sua vertente física, emocional e social.

Viva a correta compreensão dos deslocamentos de ar, pois ela é capaz de transformar ar que sufoca e desnorteia em força propulsora.

Avante, filhos do vento!