Minha escolha clown

(Felipe Mello)


Ulalá! Motivo quente de celebração. Queima, queima, revela mente. Arde, arde, revela coração. Uma pirueta, duas piruetas, bravo, bravo!

As piruetas da minha escolha clown bagunçaram o meu coreto e me fizeram questionar o mundo pé-no-chão. A bravura da minha escolha clown me fez acreditar que não existe uma única resposta para cada desafio da vida, assim como me apontou o caminho da coragem de ser, do direito inalienável que me foi dado quando eu nasci de seguir em busca do meu destino a cumprir. As piruetas são os meus mapas; a bravura, o meu combustível.

Lindas piruetas para grandes desafios. Elas me deixaram e me deixam cada vez mais tonto, colocando o meu mundo de cabeça para baixo, pernas ao vento, frio no estômago. Também pelas piruetas torci meu corpo como nunca antes, descobri a delícia de expandir horizontes, sonhar alto, fundar mundos, desafiar o tempo e a morte. A escolha clown me faz criar no mundo, e quando eu crio me aproximo do divino. Apesar da primeira pessoa empregada amiúde neste texto, quero lembrar que estas experiências são possíveis e necessárias a todos. A escolha clown é um caminho para todos, até porque não se trata de representar o que não se é, mas sim de se revelar em sua potência plena. Para tanto, há de se des-formar. Atenção, pois eu não escrevi deformar. Eu escrevi des-formar.

Eu brinquei de Lego comigo mesmo, fui me desmontando a partir do momento em que a música clown invadiu o local sensível da minha alma, onde mora a bondade e a espontaneidade. É disso que se trata, inclusive, a educação humana: construir bondade e permitir a explosão da espontaneidade singular por meio dos talentos. Mais música, mais música! Depois de me desmontar e ficar apavorado ao ver todas aquelas peças espalhadas pelo chão frio da existência, fiquei ainda mais apavorado. Desespero ao cubo! Desespero por ver cubos, quadrados, triângulos, círculos e tantas outras formas de mim mesmo atrofiadas pela repetição. Se eu vacilasse naquele momento, elas voltariam a compor a mesma forma, elas se reformariam. Eu não precisava de reforma, mas sim de uma nova forma. O desespero alimentava animais alados em meu estômago. Eles voavam para todos os lados, provocando uma revoada de sensações. Eu ouvia gritos internos e externos, não sabendo eleger quais deles me aturdiam mais.

Os gritos de fora, opiniões, conselhos e críticas alheias, eram provas do quanto me amavam. Gostavam tanto de mim que não entendiam os porquês de meus questionamentos, propostas de mudança. Tudo o que diziam ou deixavam de dizer era por amor, especialmente ao que eu já era, como fato certo. Os outros não sabiam o que eu poderia vir a ser, o que naturalmente lhes causava certa apreensão. Felizmente, a oxigenação ampliada que a pirueta gerou em minha alma e a ingestão da bravura clown me iluminaram: os outros não nos conhecem verdadeiramente. Eles conhecem aquilo que eu demonstro e aquilo que querem que eu seja. O compromisso real é meu. A existência é minha. A conta devia ser paga por mim, pois o cardápio estava à minha mão e eu estava sentado na principal cadeira da minha própria mesa. Escolhi o banquete clown.

Os outros, quero parar de falar neles por enquanto. São convidados em alguns momentos em nosso jantar. Contudo, a mesa é nossa, a cozinha é nossa, o estômago para dar conta do ingerido depois também o é. O cardápio mistura aquilo a que nos expomos com aquilo que criamos, o mundo de fora e o mundo de dentro. O clown me ensinou a arte de temperar melhor meus ingredientes, ampliando o sabor e a estética daquilo que engolirei. Hoje em dia, até na hora de engolir sapos, tenho muito mais prazer. Sei que aquilo que não me destrói me eleva, porque a minha escolha clown me faz a cada dia um perdedor feliz.

Avestruz! Agora mexi no vespeiro. Epa. Tomara que a avestruz não esconda a sua cabeça em um vespeiro. Hein? Mas vespeiros não estão no chão, mas em copas de árvores e afins. Ufa! Sorte da avestruz. Voltando ao assunto que encerrou o parágrafo anterior (recurso “cenas do próximo capítulo” da redação), que história é essa de ser um perdedor feliz? Sim, hoje eu posso confessar sem pudor ou medo de ser internado que aprendo muito nas minhas dificuldades, derrotas, desventuras ou como queiram classificar as oportunidades nas quais as coisas não afagam nossas expectativas. Minha escolha clown me libertou da caverna escura onde só existe lugar para winners ou losers. Detalhe: inserir verbetes em idioma estrangeiro dá pompa e circunstância a qualquer texto. Basta prestar atenção nas músicas. O cantor ou cantora podem estar falando a maior asneira cafona e tosca da galáxia, mas se estiver em inglês ou francês soa como uma ária perfeita aos nossos tímpanos deslumbrados. Após este momento autocrítico, faço um ajuste, voltando à caverna de onde fugi. Quando eu disse que lá dentro cabem apenas winners ou losers, reforço dizendo que lá dentro só há glória na vitória porque as derrotas são vergonhosas. Hoje eu tenho orgulho dos meus fracassos, pois eles desnudam os aspectos que ainda me afastam da plenitude dos meus talentos.

Falar de minha escolha clown é uma delícia. Cabe até uma segunda taça de vinho tinto. Curiosamente, o nome do vinho é Frontera. Não me cabe fazer propaganda, mas não resisti à provocação que o nome me causou. Coçaram-me os dedos quando eu percebi que eu estou brindando estas reflexões com um néctar cujo nome trata exatamente do assunto em questão. Romper fronteiras, inaugurar novos países e povos de nossa alma. Que venham as novas terras, planaltos e planícies. Mas por favor, retire do meu pedido as fronteiras. Não quero este pickles no meu sanduíche. Quero um sanduba sem fronteiras como as conhecemos. A minha única linha divisória atual é o profundo respeito à vida, que busco ampliar temperando o conhecimento com a ética. Aí sim, acredito que esteja o caminho, pois me permite gerar sabedoria. A verdadeira fronteira entre o humano e o tirano é a sabedoria. Ela é fruto nobre, pois não se encontra entre gente vulgar.

Voltando à caverna, percebo que ela pode exercer fundamental papel metafórico, afinal, o mito tão conhecido e herdado da sapiência platônica trata exatamente da coragem de ser, chegar à beira do trampolim e escolher saltar em direção ao voo, ainda que exista a possibilidade da queda. Eu celebro o fato de ter rompido os grilhões e encarado a luz verdadeira, a luz de Apolo. Até hoje o brilho das possibilidades que a escolha clown me trouxeram ofusca a minha visão. Até hoje as cores que eu passei a enxergar inundam a minha retina em uma explosão de fogos de artifício que queimam preconceitos e generalizações. Até hoje, e oxalá esta sensação se prolongue por todos os meus dias, sofro e comemoro o acréscimo crescente de sensibilidade que experimento desde os tenros dias de minha caminhada clown. Choro muito mais, especialmente de emoção frente ao belo. Choro muito mais, também pela confirmação de que ainda temos muito a aprender, sendo as provas as barbáries e desrespeitos tão fáceis de ver no dia a dia.

Se o Bill Gates ficou trilhardário criando o seu Windows, o meu clown me fez perceber, construir e abrir, além de janelas, portões e pontes. Eu também fiquei mega-hiper-blaster-ultratrilhardaríssimo! O que muda são as moedas. Hoje sou muito mais rico em se tratando de interações nutritivas e gostosas com o mundo. Hoje eu posso afirmar que entendo quando dizem que o importante não é buscar desesperadamente e a qualquer custo todas as respostas. Hoje eu sei que o maior desafio é melhorar a qualidade das minhas dúvidas. Evoluir é tornar as minhas perguntas mais inteligentes, especialmente porque estão conectadas com alguma dúvida realmente importante para a minha caminhada. Fico triste quando vejo gente buscando respostas para perguntas que nem se lembram mais quais são. Normalmente isso acontece quando a gente não se apropria da pergunta, mas sim a reproduz porque alguém mandou ou sugeriu. Perguntas enlatadas geram respostas frias e que não nos espantam. Minha escolha clown ampliou a capacidade de me espantar com as coisas da vida, nutrindo a minha curiosidade, meu impulso vital de aprender e experimentar. Quero manter para sempre os olhos interessados, até por ser a única forma de me tornar interessante de alguma maneira e para alguém. O interessado se torna interessante. Será esta a frase do para-choque do meu caminhão. Afinal, quem não sonha em ter um caminhão?

Eu não queria, não, mas vou terminar o texto. Na verdade, pensando e sentindo melhor, quero encerrar, sim. Até porque ainda vou dedicar muitas outras páginas a esta escolha de vida, nitroglicerina pura! Buuuummm!!! Vou me retirando aos poucos, mas não sem antes prestar algumas homenagens. Eu amo o Mario Quintana, especialmente em momentos nos quais ele transforma as palavras em chaves libertadoras. Ele me disse assim: “estes que aí estão, atravacando o meu caminho, eles passarão, eu passarinho”. Eu amo José Régio quando ele diz “que não me venham com piedosas intenções, que não me peçam definições, que não me digam vem por aqui”. Eu vou pelos meus próprios caminhos, cada vez mais iluminados pelas lentes que a escolha clown me deu e continua dando. Parece uma coleção de lentes, unidas exclusivamente pela busca pelo nobre, belo e justo. Eu não quero ser o piadinha de plantão. Não é disso que se trata o clown, a despeito do que muitos acreditam. É muito mais sabedoria que bufonaria. A comédia é uma estratégia muito inteligente e saudável de cavucar ao centro da existência humana, polindo sua pérola e transformando carvão em diamante. Por isso os grandes clowns são eternos, por serem diamantes. Só me interessa ser eterno pelos sorrisos que cultivei. Só tudo isto!

Não tenho receitas. Não aceitem receitas. Aceitem provocações, como eu aceitei. Mergulhem nas dúvidas, como eu mergulhei. E arrematando com a linda Lispector, “não se preocupe em entender, viver ultrapassa todo entendimento”. Não estou preocupado em entender, mas exatamente pela ausência desta avidez que pode cegar eu vou conseguindo encaixar as partezinhas de minha compreensão das coisas. E o melhor de tudo é que se eu precisar des-formar tudinho para começar novamente, estou pronto para fazê-lo, pois mora de papel passado em minha alma a paixão pelas piruetas e bravura da escolha clown.​