Mitos nossos de cada dia



(Felipe Mello)


Mitos são coisas que nunca aconteram, mas sempre existiram. Eles compõem uma linguagem universal, uma forma de nos comunicarmos com toda a história da humanidade que nos antecede. Podemos nos aproximar daquilo que afligia nossos antepassados por meio dos mitos, criados para dar conta das angústias, das nossas angústias tão humanas.

Vejo uma intersecção nos mitos aqui citados de forma bastante resumida (vale muito a pesquisa de mais informações sobre eles, pois são fontes potentes de reflexão, inspiração e ação): os protagonistas buscam compreender melhor a condição humana, passando por provações imensas, sofrimento, frio na alma.

Mas será que o medo da luz não pode nos deixar para sempre como escravos da sombra, ou ainda, do apequenamento? Poupar em demasia o peito das espadas da vida pode até nos deixar ilesos em termos de cicatrizes. Mas também pode nos condenar a viver limitados e encarcerados em jaulas medíocres. Quase gente. Quase alegre. Quase competente. Quase transformador. Definitivamente, não é disso que precisamos no Terceiro Setor.

 

MITO DE SÍSIFO

Sísifo tentou enganar os deuses e a morte, sendo castigado por Zeus de forma implacável: passaria a eternidade empurrando uma enorme pedra morro acima; ao chegar ao totpo, imediatamente veria a mesma pedra rolar morro abaixo, dia após dia.

Por mais que se tente praticar o autoengano, a procrastinação, as infinitas justificativas, a eleição de culpados, a vitimização, se se deseja escapar da rotina repetitiva, não há outro caminho a não ser encarar a realidade: o mundo está radicalmente diferente a cada dia; se não participarmos ativamente da mudança, fracassaremos em nosso objetivo de construir um mundo menos inóspito para tantos seres. Fazer tudo sempre igual, ou muito parecido, e esperar resultados diferentes, já sentenciou Einstein, é sintoma de neurose.


MITO DE NARCISO

Narciso veio ao mundo para lembrar os humanos da importância da beleza e do amor. No entanto, o oráculo alertara os seus pais que Narciso nunca poderia ver a própria imagem, pois se apaixonaria incondicionalmente por ela. Claro, ele vê o seu reflexo numa fonte d’água e confirma a profecia. Depois de muitas tentativas de libertá-lo do ensimesmamento, Eco, uma divindade que entregava tudo de si, foi a última tentativa de resgate de Narciso. Ela também fracassa e, inconsolável, se joga do despenhadeiro e passa o resto dos seus dias murmurando um eco triste. Ele, com final não menos trágico, afoga-se na fonte, inebriado por sua própria beleza.

Entre Narciso e Eco estão as histórias de todos nós, indivíduos e organizações. Ele nada queria dar de si. Ela queria dar tudo de si. Onde nos localizamos nessa escala existencial? Damos tudo de nós e esquecemos de nos valorizar? Não damos nada de nós e nos afogamos em nossa arrogância e isolamento?


MITO DE ÍCARO

O pai de Ícaro, Dedalus, um importante inventor, traiu um rei e foi condenado à prisão juntamente com o seu filho. Começou a reunir as penas que caíam dos pássaros que sobrevoavam a prisão, unindo-as com cera de abelha para fazer asas. Quando estavam prontas, entregou um par ao seu filho, com a instrução de que, em seu voo, não deveria subir tão alto, pois o calor do sol derreteria a cera, nem tão baixo, pois a umidade do oceano faria com que as penas pesassem demasiadamente. Ícaro, no entanto, fascinado com a possibilidade de voar, foi tão alto que o sol derreteu a cera e as asas se desfizeram, o que culminou em sua morte no oceano.

Rumo ao novo! Rumo a novos mundos. Mas alto lá! Quem tem asa de cera precisa saber a altura que deve voar. Quando falamos em ampliar nosso senso de realidade, nossa lucidez frente ao novo mundo a cada dia, às novas demandas e possibilidades, precisamos também nos lembrar que se trata de um processo de diagnóstico e fortalecimento. É uma espécie de tratamento. Beber de uma vez o vidro todo do remédio não antecipa a cura, possivelmente trazendo mais dano que benefício.


MITO DE PROMETEU

Prometeu foi castigado por Zeus por tê-lo traído e por compartilhar o fogo (a sabedoria) com a humanidade. O castigo foi o acorrentamento eterno no topo de uma montanha. E como ele era imortal, diariamente abutres comeriam o seu fígado, para que durante o frio noturno o mesmo fígado se reconstruísse e a tortura pudesse continuar no dia seguinte.

O Terceiro Setor tem grandes desafios pela frente. Ainda sentimos a herança histórica da baixa participação cívica, da frágil cultura de doação de tempo e recursos financeiros de pessoas físicas. Ainda há muita dependência do conveniamento com o governo, quem em excesso pode causar dependência e atrofiamento do poder de crítica e fiscalização do setor, minando a sua razão essencial de existir.

Ameaçar os deuses do Olimpo gera risco de punição. Mas será que a possibilidade de conquistar o fogo da sabedoria e da autonomia não vale o risco?

 

MITO DA CAVERNA

O mito fala sobre prisioneiros (desde o nascimento) presos em correntes numa caverna e que passam todo tempo olhando para a parede do fundo, iluminada pela luz gerada por uma fogueira, imaginando que as sombras compõem a realidade. Até que um deles escapa e visita o mundo externo, tendo contato com o mundo real e todas as suas possibilidades. Ao voltar para a caverna e compartilhar o conhecimento adquirido, é ridicularizado, chamado de louco e ameaçado de morte.

Qual é a nossa caverna? O que estamos acostumados a ver na parede, como reflexo e não necessariamente como mundo real? Como arrebentar as correntes? Como lidar com o retorno depois de uma experiência lá fora? Será que seremos bem recebidos?


Sísifo ignorou o óbvio e foi castigado pelos deuses a uma vida medíocre porque apostou na vã esperteza, no atalho. Ícaro, deslumbrado pela possibilidade de voar alto, ignorou o pedágio da aprendizagem. Narciso e Eco tampouco são boas inspirações: nem o isolamento em si mesmo, tampouco a entrega de tudo de si até a última gota. Será que alguém consegue doar, doar e doar sem atenção às contrapartidas, ao auto-cuidado?

Na ciranda dos mitos, surge a simpatia por aquele que decidiu sair da caverna e visitar as possibilidades do mundo real, encarando o risco de compartilhar o que viu.

Se é para ser castigado pelos deuses, que seja pelo motivo nobre: tentar fazer diferente, pois mais do mesmo por muito tempo nunca foi eficiente. Que encontremos cada vez mais lucidez, temperada com algum tipo de loucura inovadora, para estimular mais pessoas a reiventar a história.