O dia em que eu comi pão-de-queijo com medo dos zumbis


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(Texto de Felipe Mello)


Naquele dia, eu acordei num hotel no Rio de Janeiro. Mais precisamente, na Barra da Tijuca, perto do parque olímpico. A noite anterior tinha sido difícil por conta de um desentendimento com uma pessoa muito querida. Adormeci assistindo ao seriado Walking Dead, em que pessoas tentam sobreviver num mundo infestado por zumbis devoradores de carne. A coisa está feia no seriado. Além dos zumbis, os seres humanos precisam escapar das armadilhas que os outros seres humanos aprontam. Tudo pela sobrevivência. Tudo mesmo. Apaguei na cama grande com travesseiros fofos sem escovar os dentes ou tomar banho. Tento evitar isso ao máximo, mas às vezes acontece. Não me culpo muito, não, mas também não conto para a minha mãe. Saí da cama cheinho de preguiça e algumas dores. Acredito que não tenha dormido na melhor posição, além de ter passado o dia anterior todinho sentado em reuniões sucessivas. O joelho esquerdo doía e as costas também. O coração estava apertado e a alma vibrando em volume baixo. Enfim, acordei esquisito. Abri a cortina do quarto do hotel, passei pela porta de vidro que dá acesso à sacada. A vista do nono andar era ampla. O dia estava bonito, céu aberto e sol acolhedor. Dia de praia, com certeza. Só que não, ou ainda, só que não para mim. A agenda ainda pedia uma reunião antes do retorno a São Paulo. Eu ainda tinha um tempinho para acordar direito, tomar banho, escovar os dentes, comer e ir para a vida do lado de fora. Antes de tudo isso, liguei o computador e descobri que o Trump tinha sido eleito presidente dos Estados Unidos. Fiquei olhando para a manchete por um tempo. Não tive nenhuma reação imediata. A ficha demorou um instante para cair. Ato contínuo, senti uma mistura amarga de tristeza e desânimo descendo goela abaixo. Engoli seco. Suspirei fundo e fui para o banho, pensando nos Trumps, Dórias, Crivellas, Temers, outros que tais e tanta gente que escolheram votar neles ou apoiá-los de alguma forma. Uma pontada de revolta atingiu o meu estômago. Liguei o chuveiro na água morninha. Não. Nada de coisa morna. Senti a necessidade de água fria na cabeça. Evitei com certo esforço que a revolta tomasse conta de mim. As eleições foram democráticas, não foram?, argumentei comigo mesmo. Desliguei o chuveiro pensando que estava mais do que cansado de me revoltar. Gostei do jogo de palavras que se seguiu, apesar da parca originalidade: menos revolta e mais revolução! Depois dos procedimentos mínimos de higienização pós-banho, segui para o primeiro andar para tomar o café-da-manhã. Tinha uma televisão ligada informando as últimas notícias, considerações, previsões e outros blábláblás sobre a eleição estadunidense. No meu canto, comi ovos mexidos, pães-de-queijo, pão francês com manteiga e um pedaço de mamão. Bebi um suco de laranja gostoso e duas xícaras de café com um pouquinho de leite. Estava tudo apetitoso. Entre uma garfada e outra, peguei meu celular e vi que os grupos do Whatsapp estavam a mil por hora. Todos falando da eleição estadunidense, assim como a TV e a internet em geral, da mística que poderia envolver o 11/09 (atentados em Nova Iorque) e 09/11 (Trump eleito), do fim do mundo, do encerramento do ciclo progressista, do retorno feroz do conservadorismo, da vontade de ir para Marte, da previsão que os Simpsons fizeram há anos e muito mais. Eu continuei comendo os pães-de-queijo e bebendo café forte. Quando terminei, voltei para o quarto, arrumei minha maletinha-para-viagem-de-um-dia-fora, fechei a conta do hotel e fui para a rua. Eu não queria andar de táxi e nem de Uber. Queria me deslocar pela cidade no coletivo, misturado, heterogeneizado, mais perto dos múltiplos tus do que do eu que doía em mim. Eu tropeçava na vida naquele momento. Outros por perto poderiam me escorar em caso de necessidade. Era a minha esperança. Peguei o BRT (corredor de ônibus) e fui para a reunião. Terminei o que tinha que fazer e peguei o frescão (ônibus com ar condicionado) que faria o caminho para o aeroporto Santos Dumont via litoral. Pensei que poderia adiantar o meu voo. Minha cabeça já estava no vinho que eu queria beber no final do dia para ajeitar o desentendimento da noite anterior.

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O texto está acabando. Por isso tomo a liberdade de mudar o tempo verbal. Enquanto eu escrevo estas palavras, estou sentado na poltrona 03 do ônibus com ar condicionado. São 12h37 do dia 9 de novembro de 2016. Pela janela eu vejo a orla carioca. Que coisa mais linda, mais cheia de graça! O ônibus está passando pelo Forte Copacabana. Pronto, agora já estamos na Avenida Atlântica. À minha direita, lá na frente, consigo ver o Pão de Açúcar e seus bondinhos, subindo e descendo. Vejo muita gente na praia jogando futevôlei, caminhando, tomando água de côco e fazendo tantas coisas gostosas. Estou tentando encontrar um final contundente e provocador para este texto. Nada de especial me vem. Estou tomado por um deja vú literário. A única coisa que me ocorre é que não tenho (não temos) mais para onde correr. É no miúdo da vida que as transformações acontecem, de dentro para fora e de fora para dentro, individuais ou coletivas. Apesar do dia meio chateado, neste momento estou renovando comigo a vontade de nutrir mais do que intoxicar. Que os meus gestos ratifiquem as minhas palavras. É o máximo de inspiração que consigo neste momento. Na verdade, meu pensamento está nos próximos episódios do Walking Dead. Será que os humanos escaparão dos zumbis? Será que os humanos escaparão dos humanos? Vai logo, ônibus, que eu preciso de uma conexão wifi para descobrir!