O universo do palhaço, o diálogo e a compreensão na comunicação humana


O universo do palhaço, o diálogo e a compreensão na comunicação humana

Texto de Felipe Mello

Antes de tudo, especialmente antes de quaisquer palavras derivadas do desafio de escrever um texto bem escrito, rendo-me a uma vontade anterior. Vontade – que está na origem da palavra voluntário (do latim voluntas) – de reconhecimento, de gratidão, de homenagem, tudo misturado no precioso lugar da co-moção, do mover-se junto.
Além de considerações conectadas ao conjunto de experiências pessoais, este texto conta a história do encontro com dois personagens que, entre tantos que felizmente já cruzaram a minha ponte para trocas reciprocamente nutritivas, foram escolhidos com muito carinho para comigo compor algumas notas de reverência ao poder do diálogo e da compreensão. Personagens com os quais eu exercitei a musculatura desafiadora proposta por Michel Maffesoli (1988), quando este nos lembra do valor da disposição para se ouvir o mato crescer.
Como a história do segundo personagem, o menino Robson, será contada com mais riqueza de detalhes, é para já que trago a minha reverência à dona Rachel, funcionária da copa de um dos muitos andares do maior complexo hospitalar da América Latina, o Hospital das Clínicas, em São Paulo-SP. Foi lá que, no segundo semestre de 2014, se deu o nosso encontro. Breve. Singelo. Potente.


Obrigado, dona Rachel!

Naquela noite de novembro eu acompanhava um grupo de seis novos integrantes do Doutores Cidadãos, um programa social que, desde 2001, prepara voluntários para visitar hospitais públicos e filantrópicos, valendo-se da figura do palhaço como passaporte de conexão com o outro – pacientes, acompanhantes ou profissionais da saúde. Faço parte da iniciativa desde o início, pois foi com um parceiro de jornada, com quem fundei a ONG Canto Cidadão, responsável por este programa social, que dei os primeiros passos de uma caminhada que já beneficiou mais de três milhões de pessoas, em mais de 200 hospitais brasileiros e de outros cinco países.
Diferentemente do que pode pensar o senso comum, o objetivo principal dos palhaços hospitalares do nosso grupo não é o sorriso do interlocutor, mas, sim, a proposição de interações que valorizem a vida. Como missão maior que nos inspira, a busca pela construção e proteção da alegria coletiva, por meio da reunião de pessoas talentosas que se colocam à disposição da tecitura de bons encontros. Acreditamos, sim, no poder do sorriso, desde que ele venha como consequência, ou seja, como parte da colheita. Mas não como causa, uma vez que o nosso plantio primordial visa espalhar sementes diretamente relacionadas ao que propõe Martin Buber (2001), ou seja, a celebração da fundação do Eu por meio da interação com o Tu.
Volto ao encontro com dona Rachel. Às 19h30 daquela noite, saímos do local de preparação dos personagens e começamos a circular pelo hospital. Entrando em uma determinada ala, percebi dentro da copa uma senhora executando as suas tarefas. Ela preparava a distribuição do jantar dos pacientes de forma tranquila. Quando se virou para a porta, encontrou sete palhaços à sua frente. Prontamente, seu rosto ruborizou, contrastando com os cabelos mezzo brancos (nas raízes) e mezzo louros. Então, deu-se a mágica.
Eu, de mãos dadas com o meu personagem Dr. Raviolli Bem-te-Vi, fiz as saudações de praxe, apresentei os demais colegas e parti para o néctar do encontro: a valorização do outro. Fitando diretamente os olhos daquela senhora, manifestei meu agradecimento pelas tarefas executadas, diariamente, por ela. Sem rodeios, coloquei uma lente de aumento no valor do que ela fazia no miúdo de sua vida profissional. Instantes depois, ela começou a chorar. Diante das lágrimas tímidas de dona Rachel, aguardei. Os outros voluntários ficaram inquietos. Teria o palhaço avançado algum sinal vermelho? A resposta não tardou. Ela, generosamente, revelou que suas lágrimas eram de alegria, pois eram raros os momentos em que alguém se dispunha a com ela interagir. Contou-nos ainda que aquele serviço fazia parte de sua rotina há 33 anos, e poucas foram as vezes que alguém se dirigira a ela de forma tão explicitamente carinhosa. Impossível registrar a mágica de um momento como aquele, quando a invisibilidade é rompida, quando os crachás e as hierarquias ficam de lado, permitindo o florescimento do diálogo humano. 


Meu encontro com o palhaço

Em 2001, o universo do palhaço invadiu definitivamente a minha vida. Desde menino, aquela figura me intrigava, em especial a sua essencial busca pela graça. E olha que eu ainda nem conhecia, àquela época, o triste poder da desgraça, ou ainda, da falta de graça. Causava-me coceira na alma e, confesso, uma certa carga de medo, ver aquele punhado de cores reunidas em uma única pessoa, assim como a manifestação de sua potência de viver. Mais tarde eu entendi que o palhaço era a minha Medusa, aquilo que nos espanta, que nos causa paúra, e que só pode ser observada de forma qualificada, indiretamente, pela reflexão, pois de outra forma pode nos petrificar. O meu menino digeriu o palhaço a partir de impactos embrionários, muito mais próximos às impressões sensoriais que a quaisquer outras reflexões elaboradas. Algo me dizia que chegaria o momento em que eu mergulharia naquele mar de mil matizes e reflexos.
No mês de agosto de 2001, decidi iniciar a gênese do meu palhaço. Após intenso trabalho de parto, surgiu o protótipo do Dr. Raviolli Bem-te-Vi, que começou a visitar o Hospital Estadual Brigadeiro, na capital de São Paulo, primeiro de dezenas de unidades de saúde pelas quais o personagem besteirologista já circulou, em busca de tesouros relacionais. Antes de trazer uma das tantas histórias vividas naquele local, cuja maior missão é auxiliar às pessoas no tratamento da leucemia, compartilho mais impressões sobre a descoberta do meu palhaço.


Piruetas bagunçaram o meu coreto

As piruetas dessa escolha bagunçaram o meu coreto e me fizeram questionar o mundo pé-no-chão, fazendo-me perceber que não existe uma única resposta para cada desafio da vida, assim como alimentou, e ainda alimenta, a conta-gotas, a disposição para o caminho da coragem de ser, do direito inalienável que me foi dado, quando eu nasci, de seguir em busca do meu destino a cumprir. Lindas piruetas para grandes desafios. Elas me deixaram e me deixam cada vez mais tonto, colocando o meu mundo de cabeça para baixo, pernas ao vento, frio no estômago. Também pelas piruetas torci meu corpo como nunca antes, descobri a delícia de expandir horizontes, sonhar alto, fundar mundos e desafiar o tempo cronológico.
Apesar da primeira pessoa empregada amiúde neste texto, quero lembrar que, talvez, essas experiências sejam possíveis e necessárias a todos, até porque não se trata de representar o que não se é, mas, sim, de encarar honestamente a jornada idiossincrática. Para tanto há de se des-formar. Atenção, pois eu não escrevi deformar. Eu escrevi des-formar. Eu brinquei de Lego comigo mesmo, desmontando-me peça a peça a partir do momento em que a música do palhaço invadiu o local sensível da minha alma, onde, segundo Rubem Alves
(2014), moram a nossa bondade e espontaneidade. Não é disso que trata, ou deveria tratar, primordialmente, a educação humana: construção de bondade e permissão para a explosão da espontaneidade singular por meio dos talentos?
Os gritos de fora, opiniões, conselhos e críticas alheias, eram provas do quanto me amavam. Gostavam tanto de mim que não entendiam os porquês de meus questionamentos, propostas de mudança e piruetas. Tudo o que diziam ou deixavam de dizer era por amor, especialmente ao que eu já era, como fato e forma dados. Os outros não sabiam o que eu poderia vir a ser, o que naturalmente lhes causava certa apreensão. Felizmente, a oxigenação ampliada que as reviravoltas causaram em mim, me apontaram o caminho. A conta deveria ser paga por mim, pois o cardápio estava à minha mão e eu estava sentado na principal cadeira de minha própria mesa.
O palhaço vem me ensinando a arte de temperar melhor meus ingredientes, ampliando o sabor e a estética daquilo que engolirei. Hoje em dia, até na hora de engolir sapos, tenho muito mais prazer. Sei que aquilo que não me destrói me eleva, porque a minha escolha me faz a cada dia um perdedor feliz, como provoca Angela de Castro e compartilha amiúde Ana Wuo (2001). Até porque, reforça Wuo, para nos tornarmos palhaços, precisamos romper os paradigmas que classificam vencedores e bem-sucedidos, já que o palhaço é um campeão do fracasso. Quando nos julgamos péssimos, o público adora, porque isso faz parte do ser humano. Algo como uma linguagem silenciosa que comunica a lógica particular de cada pessoa, com a incorporação do fracasso sendo pilar do processo de reaprendizagem, de renascimento.
Até hoje, o brilho das possibilidades que a escolha pelo universo do palhaço me trouxe ofusca a minha visão. Até hoje, as cores que eu passei a enxergar inundam a minha retina em uma explosão de fogos de artifício que queimam preconceitos e generalizações. Até hoje, e oxalá esta sensação se prolongue por muito tempo, sofro e comemoro o acréscimo crescente de sensibilidade que experimento desde os primeiros dias de minha nova maneira de caminhar. Choro muito mais, especialmente de emoção frente ao belo. Lágrimas humanas, demasiadamente humanas. Percebo-me cada vez mais rico em interações nutritivas e gostosas com o mundo. Amplio aos poucos, em especial a cada tropeço, a capacidade de entender que o importante não é buscar desesperadamente e a qualquer custo todas as respostas. Talvez o maior desafio seja mesmo melhorar a qualidade das dúvidas, até porque as perguntas enlatadas parecem gerar respostas frias e que não nos espantam. Quero manter os meus olhos interessados, até por perceber que assim multiplicam-se as chances de me tornar interessante, de alguma maneira, a mim e aos outros. O interessado se torna interessante. Será esta a frase do para-choque do meu caminhão. Afinal, quem não sonha em ter um caminhão? 


Menino Robson, meu timoneiro

Se Joseph Campbell (2010) me trouxe tantas considerações sobre a Jornada do Herói, peço licença para contar mais um episódio de minha Jornada do Palhaço. Como prometido, compartilho a história vivida com o menino Robson, lá nos primeiros meses de 2002, também no Hospital Estadual Brigadeiro, em São Paulo-SP. O substrato desse capítulo de minha vida me trouxe uma reflexão perigosa e essencial: quem disse que os caminhos do Paraíso não existem ou estão longe de nosso alcance? Perigosa porque, quando não qualificada, pode se tornar presa fácil das impressões superficiais e, ainda pior, das generalizações de qualquer sorte. Essencial por fortalecer o apreço pelas interrogações, vírgulas, ponto-e-vírgulas e reticências, exorcizando o dogmatismo e abrindo o terreno à compreensão, como tanto Dimas Künsch (2009) nos convida a fazer.
Os encontros com o menino Robson me permitiram testemunhar a possibilidade de içar velas e fazer soprar o vento suave e justo do bem-estar subjetivo. À época, o comandante que me inspirou era um garoto de aproximadamente 12 anos. Rebento de palavras ágeis e mãos coordenadas para o desenho, conquistou a minha atenção e admiração durante o tempo em que o visitei no hospital. Ele, com motivação e fome de vida transbordantes. Eu, saudável e disposto a ajudar, naquilo que possível, a amenizar as dores, angústias e indefinições dos seus lúdicos pensamentos. Ele, potência de existir, lutando contra um câncer poderoso.
Durante meses, visitei o quarto do jovem mestre, sempre na torcida e expectativa de uma resolução positiva de seu problema. Não acompanhei clinicamente o seu estado de saúde, mas baseei-me em sua disposição e nos tímidos esboços de sorriso de sua benevolente e apaixonada mãe. Podia ver nos olhos daquela senhora a melhoria ou a estagnação da condição do garoto. E que olhos! Olhos de amor, esperança, carinho, ternamente dispostos a fitar seu filho por anos, caso o destino assim decidisse. Em algumas visitas, tive a certeza que ele estava se apresentando melhor, dando golpes de vida em seu adversário, cadafalso de um futuro cheio de possibilidades. Mas, em uma tarde, a minha certeza desmoronou.
Transitando pelos corredores e leitos hospitalares, percebi que estava à porta do quarto do Robson. Mas o quarto estava vazio. Onde estaria ele? Aonde teria ido? As perguntas se repetiam, castigando a minha crença em sua recuperação. Eu não busquei informações sobre o seu paradeiro, e passei alguns dias na dúvida: teria o meu timoneiro perdido a batalha para as revoltas águas do câncer?


Nos caminhos do Paraíso

Dois dias se passaram.
Eu retornava de uma reunião de trabalho pelas ruas do Paraíso – um bairro da capital paulista – para chegar ao meu destino. Fazia muito calor e o trânsito, alto escalão da tirania metropolitana, contribuía para que a minha paciência se esvaísse sem dó. Era impossível estancar a ansiedade por chegar ao próximo porto, livrando-me de buzinas, semáforos e potenciais desafetos. O trânsito da cidade de São Paulo muitas vezes não parece ser terreno fértil para o cultivo dos valiosos e necessários sentimentos de solidariedade e fraternidade.
Seria só isso mesmo?
Balela! Os fatos que se sucederam provaram que a minha irritação provavelmente vinha de alguma insatisfação de marca menor, mas que me aborrecia um bocado e apequenava o meu dia. Foi preciso um choque inspirador para que eu reconhecesse e avaliasse, como sempre parece ser possível fazer, aquilo que realmente merece o nosso irrecuperável desgaste.
Num dos intermináveis semáforos (acredite, eles são infinitos), olhei para o lado. Vi um garoto careca, uma senhora de meia idade e um jovem senhor, rindo em alto e bom som. Risadas que criavam um cenário paradoxal: dezenas de pessoas, naquele quarteirão, dentro de seus automóveis, lutando incessantemente pela conquista de alguns metros de asfalto, desafiando quem ousasse ocupar parte de seu caminho.
Olhei novamente para o grupo que passava. Era o Robson, sua mãe e padrasto. Puxa vida!
Um misto de alegria e preocupação confundiu meus pensamentos. Movido pela dúvida, gritei seu nome. Pude perceber que ele olhou em minha direção. Naquele exato momento, o semáforo acionou a sua luz verde. Não coloquei o meu carro em movimento. Queria fazer contato visual com o garoto. Passaram-se dois segundos e veio a primeira leva de buzinas. Como ele caminhava na direção contrária, pelo retrovisor vi que ele se afastava. Decidi fazer a volta, ignorando os gestos de reprovação, e rapidamente alcancei o grupo que continuava a caminhada. Encostei o carro e fui ao seu encontro. Postei-me à frente deles com um sorriso explícito, pois via renascer aquela certeza da evolução do tratamento do garoto, perdida dias antes ao visualizar o seu leito vazio no hospital. Senti uma grande decepção ao perceber que eles não tinham me reconhecido. Seria possível que não se lembrassem de mim? Meses de visitas divertidas e prazerosas, ao menos para mim, que não reluto em dizer o quanto aprendo em meu trabalho voluntário. Será que a recíproca não era verdadeira? Será que eu tinha sido um estorvo sem “desconfiômetro” durante todo aquele tempo?
Novamente, meus sentimentos se confundiram. Lembrei-me que eles poderiam ter dificuldades em me reconhecer, pois eu estava sem o meu figurino especial. Ufa! Só poderia ser aquilo. Interrompi o turbilhão de considerações imaginárias e perguntei se eles se lembravam de mim. A resposta foi a melhor retribuição pelos meses dedicados às visitas ao garoto. Percebi que ele fitava grave e densamente os meus olhos. De um salto, ele me deu um abraço e exclamou:
- Dr. Raviolli!
Pronto! Estava liquidada, com o sincero sorriso do garoto, a minha angústia. Após um fraternal abraço, quis saber das novidades e o motivo da ausência no hospital. Atropelando as perguntas, indaguei como eles tinham me reconhecido sem o figurino. A mãe do garoto, econômica em palavras, adiantou-se, respondendo que os meus olhos e a expressão de meu sorriso evidenciaram a minha identidade.
Não podia imaginar que aquele breve papo, travado em plena calçada, com o meu carro estacionado em local proibido, com o pisca-alerta ligado, me presentearia com tamanho aprendizado. O garoto conseguira alta do hospital, uma vez que conquistara uma sonhada vaga em uma organização sem fins lucrativos, extremamente competente em seu objetivo social de atender às crianças com câncer. A saída do hospital representava uma enorme conquista para aquele garoto, embora todos soubessem que a batalha ainda seria longa, de resultado indefinido. Mas que importava o crepúsculo, se os olhos daquela criança só conseguiam enxergar o raiar do sol, após meses num leito hospitalar?
Raiar de vida, um dia após o outro.
A motivação de meu pequeno mestre para viver me fez e ainda me faz refletir, do alto de minha condição física, se eu tenho realmente motivos para intoxicar os meus dias.
Após reflexões, concluí e continuo concluindo que, felizmente, tenho poucos. O menino Robson me presenteou com mais evidências sobre a importância da diferenciação entre contratempos, problemas e tragédias.
Confesso que às vezes empreendo esforços para transformar contratempos em tragédias. Quando isso acontece, trago à memória a inesquecível imagem de meu jovem capitão, caminhando de cabeça erguida, abastecido de esperança, pelos caminhos do Paraíso.

Referências
LAGO, Samuel Ramos (Org.). O melhor de Rubem Alves. 3a Edição. Curitiba: Nossa Cultura, 2014.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 2010.
BUBER, Martin. Eu e tu. 5 a Edição. São Paulo: Centauro, 2001.
KÜNSCH, Dimas A. Aquém, em e além do conceito: comunicação, epistemologia e compreensão. Revista Famecos, n. 39, agosto de 2009, p. 63-69.
MAFFESOLI, Michel. O conhecimento comum: compêndio de sociologia compreensiva. São Paulo: Brasiliense, 1988.
WUO, A. E. Caderno de notas do Curso de Clown: Arte da Bobagem, ministrado por Angela de Castro. João Pessoa, Paraíba, 2001.