Recursos sem fronteiras


Do alto, bem lá do alto, não existem os contornos arbitrários que aprendemos a enxergar nos livros de geografia. Suspeito, inclusive, que a idolatria à propriedade - desde um pequeno pedaço de terra, até um país todo - seja um dos pilares da longa ficha criminal de nossa espécie. Aqui por perto, e em todo canto, há gente nefasta que tenta a todo custo esculachar o coreto já tão instável das relações humanas.

 

No entanto, quantos foram os protagonistas que ignoraram as fronteiras criadas pelo ser humano? Não faço a menor ideia, apenas arrisco dizer que qualquer tentativa de resposta daria com os burros n’água. Há muito mais gente do que imaginamos desafiando a cegueira que cria muros e se dedicando a erguer pontes para além-mares, além-montanhas, além-fronteiras.


Busco me lembrar dessa gente com a máxima frequência. Gente que vem procurando e criando, desde sempre, oportunidades de elevar a vida, de usar as múltiplas inteligências para aprimorar a convivência. Não pode ser essa, afinal, uma maneira bela e prática de se entender Ética? Esforços e investimentos coletivos que protegem a vida, em todas as suas formas, não importando sua localização, nacionalidade, raça, credo ou quaisquer outras características? Esses personagens, até mesmo os fictícios, desafiam-me a manter a esperança ativa. Atenção, não confunda esperança com ingenuidade. Até porque eu escrevi esperança ativa. Nada de passividade, por favor. E, leia-se bem, eu nem fico pensando muito se o mundo tem solução ou não. Uma parte importante de mim já se convenceu de que não há mesmo soluções definitivas. Há, se tanto, a possibilidade de se desafiar continuamente a mediocridade que já custou tão caro a nós, humanos, quanto às demais manifestações de vida.


Antes, contudo, de citar alguns desses seres lindamente doidos e inspiradores, trago uma provocação sobre a utopia. Creio que há uma relação possível entre ela e o que eu escrevi sobre a esperança ativa. A referência vem de um vídeo com o escritor uruguaio Eduardo Galeano, que eu assisti no YouTube. Ele conta que estava em uma universidade em Cartagena das Índias, na Colômbia, dando uma palestra com um amigo argentino, diretor de cinema, chamado Fernando Birri. Em um dado momento, um estudante propôs o que Galeano considerou a pergunta mais difícil de todas: “Para que serve a utopia?”. A resposta dada pelo amigo argentino o encantou. Disse o cineasta: “A utopia está no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei. Se eu caminho 10 passos, ela se afasta 10 passos. Quanto mais eu buscá-la, menos a encontrarei, porque ela vai se afastando à medida que me aproximo. Então, para que ela serve? Exatamente para isso, para caminhar”. O resto é silêncio e caminhada, passo a passo.


Ah, e os personagens inspiradores? Pois bem. Lembro-me de Madre Teresa de Calcutá, religiosa que saiu da Albânia para cuidar por décadas de gente paupérrima na Índia. Lembro-me de Albert Schweitzer, médico, músico, filósofo, que saiu da Alsácia (que hoje é uma região administrativa francesa), para criar unidades de saúde no Gabão, um país africano marcado pela pobreza e escassez de recursos de todas as sortes. Lembro-me do inglês Nicholas Winton, corretor de imóveis que, no início da Segunda Guerra Mundial, abandonou sua vida para organizar o resgate de 669 crianças judias na antiga Checoslováquia, iminentemente condenadas à morte pelo nazismo. Para terminar o que eu poderia seguir fazendo infinitamente, felizmente, lembro-me do Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry, garotinho extraterrestre de cabelos cacheados que sai de seu pequeno asteroide B-612 para receber e promover provocações essenciais em diversos locais, inclusive em nosso planeta tão carente de lucidez.


Estou ciente do risco de citar o Pequeno Príncipe, o livro predileto das misses. Nada contra a predileção das misses (desde que elas realmente leiam o livro para além do desejo de impressionar os jurados). Muito menos contra o moleque viajante. Precipita-se, a meu ver, quem não dedica a essa obra atenção especial. Respeito as reflexões de Saint-Exupéry, autor que escreveu que “ser homem é ser responsável. É sentir que colabora na construção do mundo”. Então, que os esforços de construção de um melhor modo de estar e viver no mundo se inspirem na ideia redentora de que é responsabilidade de todos, para além das fronteiras, nutrir mais e intoxicar menos.