Um brinde à beleza do mais insignificante gesto


(Texto de Felipe Mello)


Grandes nomes da história da humanidade entregaram sua energia transformadora, em diferentes períodos, a inúmeras causas, movimentos sociais, crenças religiosas ou à ausência delas. Essas características desenham contornos muito peculiares a cada um desses nomes. Ou seja, a uma certa distância, poder-se-ia criar um distancionamento entre eles e elas, sem a necessidade de se forçar muito a barra.


No entanto, um olhar interessado e disposto a buscar mais intersecções que cisões, correria o sério risco de promover um abraço fantástico entre essas personagens que deixaram poderosos legados, os quais nem milênios e tampouco campanhas difamatórias conseguiram varrer de nossas memórias.


O fator que parece permitir tal abraço é o clamor desses grandes homens e mulheres por comportamentos cotidianos que exalem coerência entre os nossos pensamentos, discursos e gestos. Por meio de palavras diferentes, muitos deles nos deram a letra da canção que queriam ouvir ecoar: menos papo, mais atitude; menos bravatas, mais práticas que enobreçam as crenças; menos promessas, mais entregas reais.


Pois bem, daí chegamos às nossas vidas tão menos expostas e idolatradas e, de certa forma, muito menos interessantes, ao menos em se tratando daquele tipo de glamour que reveste os heróis e heroínas. Somos, nós, as pessoas comuns, capazes de interferir no mundo de forma tão relevante?


Nosso legado será cantado em verso e prosa daqui a milênios? Ou ainda, será mesmo que o bater das asas de uma borboleta na Moóca pode causar um tsunami na Ásia? Um sorriso promovido dentro de um hospital público no interior do Mato Grosso pode mudar o rumo da humanidade? Não faço a menor ideia. Todavia, o conceito e a possibilidade me instigam, oferecendo-me uma ideia de rede e de laço indissociáveis a unir tudo o que vive.


Há 15 anos eu sou palhaço de hospital. Prazer, Dr. Raviolli Bem-te-Vi, membro dos Doutores Cidadãos*, a seu dispor. Trago esta parte de mim ao papo por tudo aquilo que ela vem me oferecendo em termos de estímulos à valorização do miúdo da vida. Por miúdo eu entendo o cotidiano com seus encontros e desencontros, oportunidades percebidas e criadas, realizações e frustrações. Nada de pejorativo nisso, muito pelo contrário.


A curiosidade e a vontade de brincar com a vida, herdeiras diretas da palhaçaria à qual me entreguei, me inspiram a ficar de olhos bem abertos às decisões que me cabem. Celebro a possibilidade de exercitar meu poder de escolha: nutrir ou intoxicar? Que alegria ter liberdade e autonomia! Que responsabilidade saber que sou livre e autônomo! Chega um momento da vida – e torço para que ele chegue o quanto antes – em que talvez precisemos sair do papel de vítimas e passarmos a cuidadores. Parece ser a única forma de atingir a maioridade existencial, escapando à sedução de sermos reis e rainhas das justificativas, alçando voos rumo ao protagonismo.


O que eu desejo é a lucidez que pode permitir estar e passar pela vida com muito mais atitudes que discursos. Cada vez mais quero estar grávido de uma crença ativa que me sussurre continuamente que dentro das sementes moram árvores. E que, individualmente, decido o que planto aqui, acolá, agora e daqui a pouco, transformando a minha insignificância em algo mais belo, para mim e para os outros.

 

*Os Doutores Cidadãos são voluntários palhaços hospitalares associados ao Canto Cidadão, ONG que desde 2002 já promoveu mais de três milhões de visitas de palhaços a frequentadores de dezenas de hospitais na Grande São Paulo e em diversas outras localidades. Conheça mais em www.cantocidadao.org.br.